BEFORE THE TAIL, DANGER WAS A VOICE.
Homer não dá suas Sereias nenhuma cauda de peixe - e sem rostos. Ele acalma o vento e deixa uma canção prometer todos os segredos de Tróia. Os artistas gregos mais tarde dão a essa voz a cabeça de uma mulher e o corpo de um raptor; manuscritos medievais trazem asas e caudas juntos. Em 1837 Andersen reverte a corrente: a Pequena Sereia entrega sua língua por pernas. Odisseu pode ouvir, mas não pode se mover; ela pode se mover, mas não pode falar. As tradições se encontram no preço de uma voz.
HOW A VOICE CROSSES WATER, GROWS A BODY, AND ENDS IN SILENCE.
O mar cai ainda antes da canção cruzar o trilho
O Livro 12 da Odisseia torna o perigo quase sem peso. À medida que o navio se aproxima da ilha das Sereias, o vento bom cessa de repente e um deus aplaca as ondas para dormir. A tripulação fura a vela, leva os remos e branqueia a água cinzenta com abeto polido. Só quando o vaso entra no alcance de um grito humano é que o canto começa. Nenhum corpo imenso quebra a superfície. O mar inteiro simplesmente dá espaço para uma voz.
Essa calma estabelece a escala das Sereias. Não precisam de perseguir a nave nem de dividir o casco. Os marinheiros devem abandonar o seu próprio curso. A criatura permanece em sua ilha enquanto o som atravessa a água, passa pela disciplina e saudade, e atinge o que cada ouvinte guarda menos seguramente. Coroas, espelhos e cabelos fluindo cobrirão mais tarde a cena, mas o poder mais antigo ainda habita este canal sem vento.
Prometem não amar, mas tudo o que pode ser conhecido depois de Tróia.
HOMER · ODYSSEY XII · 184–191PERSEUS ↗ Come, renowned Odysseus, great glory of the Achaeans. Stay your ship and hear our voice. Whoever listens leaves delighted—and knowing more.ANCIENT GREEK SOURCEδεῦρ᾽ ἄγ᾽ ἰών, πολύαιν᾽ Ὀδυσεῦ, μέγα κῦδος Ἀχαιῶν,
νῆα κατάστησον, ἵνα νωιτέρην ὄπ᾽ ἀκούσῃς.
… ἀλλ᾽ ὅ γε τερψάμενος νεῖται καὶ πλείονα εἰδώς.
As sereias saúdam Odisseu como a grande glória dos aqueus e pedem-lhe para parar. A isca deles revela então sua borda. Todos os que os ouvem, afirmam, saem encantados e sabendo mais. Eles sabem de todo sofrimento sofrido por gregos e troianos sob os deuses de Tróia; eles sabem tudo o que vem a acontecer na terra fértil. Para um homem que sobreviveu pela inteligência e passou dez anos à procura do seu caminho para casa, a onisciência é uma tentação mais exacta do que a beleza.
A canção transforma a sua vida num campo de batalha que ele pode olhar para trás inteiro. Se ele pousar, ele pode aprender o significado completo do que ele deixou em Tróia - e perder todo futuro, como os ossos no prado cuja carne não terminou de apodrecer. As Sereias oferecem um épico sem um final: o herói pode ouvir sua glória cantada para sempre, enquanto esposa e filho esperam para sempre para que ele traga a história para casa.
Cera fecha cada orelha; corda preserva a audição de um homem
A solução do Circe é como o procedimento exacto. Odisseu corta um grande bolo redondo de cera de abelha, trabalha-o quente com suas palmas e o sol, e sela as orelhas de cada companheiro. Eles amarram as mãos e os pés, colocam-no em pé no mastro e seguram as pontas da corda no mastro. Ele só mantém a audição, e só ele desiste do poder de agir.
Quando a canção chega até ele, ele ordena a libertação com suas sobrancelhas. Perimedes e Euríloco não discutem com seu capitão; eles se levantam, adicionam mais laços e puxam-nos mais apertados. O ato heróico reside naquele autoconhecimento anterior. Odisseu admite que o futuro homem que ouve a canção trairá a ordem atual, e confia sobrevivência para aqueles que não podem ouvir o seu apelo. Só além do canto é que a cera e a corda se afastam, e a contenção revela-se como a coisa que o salvou.
Os vasos gregos dão à voz invisível a cabeça de uma mulher e o corpo de um raptor
Homer deixa um prado, ossos e som, mas sem anatomia. Os artistas gregos do século VI A.C. encheram esse espaço de outra tradição visual: uma cabeça humana unida a um pássaro, asas estendidas, pés arranhados agarrando a borda de um objeto. Uma tigela do século seis no The Met carrega sirenes com rostos femininos e corpos de aves ao redor da borda. Outras Sirenes Arcáicas são barbudas; seu gênero ainda não se estabeleceu em uma forma.
No século V a.C., a barba desaparece e a Sereia torna-se mais consistentemente feminina. Ela também entra em arte funerária, rasgando o cabelo ou batendo o peito para os mortos. Os pássaros movem-se entre a terra e o céu, enquanto o canto pertence ao lamento. Para um antigo espectador, a sereia poderia, portanto, carregar tanto as garras de um predador como o gesto de um pranteador. Este corpo não é uma ilustração das linhas de Homer. É a resposta separada da cultura visual à sua voz desencarnada.

Greek terracotta lekane, mid-sixth century BCE. Sirens circle the vessel without a single fish tail.
THE MET · OPEN ACCESS ↗O Argo mantém os ouvidos abertos, e Orfeu dirige outra canção através da água.
Livro 4 da Argonautica preserva outra passagem. Perto de Anthemoessa, as Sereias derramam uma voz lírio-como e os heróis preparam-se para lançar hawsers em terra. Orfeu levanta a sua lira trácia de uma vez. Uma melodia rápida e ondulante enche os ouvidos, domina a canção das mulheres, e deixa o vento ocidental e a onda seguinte levar o Argo embora.
Aqui o silêncio não derrota o canto; uma canção acompanha um navio através de outra. A vitória permanece incompleta. Butes salta de seu banco remando para o pico escuro e nada em direção à ilha. Afrodite o arrebata dos redemoinhos e o instala na Sicília. Homer salva uma tripulação através da surdez e da ligação; Apolônio chama por música, vento e misericórdia divina. As Sereias parecem maiores para ele: mesmo com o melhor cantor da terra a bordo, os heróis quase perdem um homem.
Numa página medieval, as asas de pássaro e cauda de peixe se encontram sobre a mesma água
Os bestiaries medievais herdam a canção fatal e repetidamente redesenham o corpo inferior. O Worksop Bestiary, feito por volta de 1185-1210, dá a três Sirens uma anatomia composta de mulher, pássaro e peixe: as asas permanecem, caudas apareceram, e um prende o pente muitas vezes associado com uma sereia. No início do século XIV, a rainha Mary Saltério, a junção é explícita. Uma sereia encorpada de pássaros e uma sereia de cauda de peixe atacam os homens adormecidos de um navio juntos.
Nenhum ano muda o pássaro em peixes. Talões, asas, uma ou duas caudas, espelhos, pentes e instrumentos combinam-se durante séculos, enquanto nomes latinos e mulheres-água vernáculas europeias se aproximam mais na tradução. A sirene de cauda de peixe familiar cresce através da cópia, explicação e pintura. Ela herda o perigo da canção grega e do corpo de seres aquáticos femininos do norte e europeus, como duas correntes convergentes na margem de um mar de pergaminho.

Bird-bodied and fish-tailed Sirens appear together. Convergence is more truthful than a neat evolutionary line.
BRITISH LIBRARY ↗Em 1493 Colombo vê três faces se levantar da água
DIARIO · 9 ENERO 1493INSTITUTO GEOGRÁFICO NACIONAL ↗ The previous day, near the Rio del Oro, the Admiral saw three Sirens rise high from the sea. They were not as beautiful as painted, though their faces were human in some degree.SPANISH SOURCEEl día pasado… dixo que vido tres serenas que salieron bien alto de la mar, pero no eran tan hermosas como las pintan, que en alguna manera tenían forma de hombre en la cara.
O resumo da revista de 9 de janeiro de 1493 relata que no dia anterior, perto do Rio del Oro, Colombo viu três “sirenos” subirem alto do mar. Não eram tão bonitas como pintadas, embora seus rostos fossem humanos em certo grau; ele disse que tinha visto outros na costa da Guiné. O diário original de Colombo está perdido. As palavras sobrevivem através da abreviação de Bartolomé de las Casas de uma cópia anterior, dando ao avistamento tanto a precisão como as marcas de maré da transmissão.
Os editores há muito tempo identificam esses animais como peixes-boi. Um peixe-boi pode levantar e virar a cabeça; seus membros anteriores contêm ossos semelhantes aos dedos, e a posição das glândulas mamárias da fêmea convida uma comparação humana à distância. Taxonomia moderna ainda coloca peixes-boi e dugongs na ordem Sirenia. No entanto, o encontro merece mais do que uma piada sobre visão ruim. Marinheiros chegaram a águas desconhecidas carregando nomes disponíveis, e um corpo remoto entrou no contorno de um. A história natural e a lenda surgiram juntas, cada uma apresentando metade de um rosto reconhecível.
Em 1837 Andersen faz uma sereia entregar a voz mais linda debaixo do mar
H. C. ANDERSEN · DEN LILLE HAVFRUE · 1837H. C. ANDERSEN CENTRE ↗ You have the loveliest voice on the ocean floor. You must give it to me. For my potion, I will take the finest thing you possess.DANISH SOURCEDu har den deiligste Stemme af alle hernede paa Havets Bund… den Stemme skal du give mig. Det Bedste du eier vil jeg have for min kostelige Drik!
A Pequena Sereia de Andersen apareceu pela primeira vez em 7 de abril de 1837. Depois de salvar o príncipe, ela procura mais do que o seu amor: anseia pela alma que sobrevive a uma morte humana. A bruxa do mar vai transformar a cauda dela em pernas, mas avisa que cada passo vai sentir como pisar em lâminas. Se o príncipe casar com outro, o coração dela partirá na manhã seguinte e ela se tornará espuma do mar. A poção requer mais um preço — a voz mais bonita do fundo do oceano.
A bruxa diz para estender a língua e cortá-la. Agora ela pode surpreender a corte dançando, enquanto a dor passa por cada pé. Ela salvou o príncipe e sabe quem o encontrou na praia, mas não pode dizer-lhe o nome ou a escritura. As vozes das Sereias tiram um marinheiro do seu regresso. A sereia de Andersen dá a sua voz para chegar à terra. A cauda dela já não identifica um corpo que prende marinheiros. Marca um lar que ela escolheu deixar.

No pose of maritime predation—only someone in the sea looking toward land.
PUBLIC DOMAIN ↗A faca cai no mar; ela se tornará espuma antes de recuperar sua cauda
H. C. ANDERSEN · THE KNIFE / THE FOAMFULL TEXT ↗ She flung the knife far out into the waves; the water gleamed red where it fell. She looked once more at the Prince, then leapt from the ship into the sea.DANISH SOURCE… hun kastede Kniven langt ud i Bølgerne, de skinnede røde, hvor den faldt… endnu engang saae hun med halvbrustne Blik paa Prindsen, styrtede sig fra Skibet ned i Havet.
Depois do príncipe casar, as irmãs da Pequena Sereia cortaram-lhes o cabelo para comprar uma faca à bruxa. Se ela a levar ao príncipe antes do nascer do sol e deixar cair o seu sangue quente sobre os pés dela, as pernas vão juntar-se a uma cauda. Ela pode descer e viver mais trezentos anos. Amanhece pálida quando entra na tenda e ouve o príncipe adormecido chamar sua nova noiva pelo nome.
A lâmina treme na mão dela, e depois voa sobre o corrimão para a água avermelhada. Ela beija o príncipe, salta e dissolve-se em espuma. A história não termina com o desaparecimento. A luz da manhã aquece a espuma e ela se eleva entre as filhas do ar, capaz de trabalhar para uma alma imortal através de boas ações. Andersen reserva-se o momento mais grandioso para uma renúncia que ninguém testemunha. Ela se rendeu voz por pernas; agora ela entrega o corpo por uma vida diferente. O mar não restaura a sua forma antiga. Ela vai para uma viagem mais longa e mais longa.
Um fica preso a um mastro; um fica em silêncio em um convés
Coloque as histórias a bordo de um navio imaginado e sua diferença brilha mais brilhantemente do que a cauda. Odisseu possui um nome, fama marcial e uma voz dominante. Para ouvir as Sereias, ele deixa a corda remover o seu movimento. A Pequena Sereia possui a melhor canção debaixo do mar. Para andar ao lado do príncipe, ela deixa uma faca remover a voz. Um ouve, mas não pode se mover; o outro se move, mas não pode falar. Cada um produz parte da autoridade do corpo para atravessar o canal mais estreito do desejo.
Aqui está a altura épica partilhada de Sirene e sereia. Uma canção-mar pode conter conhecimento, glória, amor, alma e regresso a casa, até que um viajante irá trocar curso, corpo ou vida para possuí-lo. Odisseu confia em companheiros para apertar os nós e carrega o que ouviu de volta para o mundo humano. A Pequena Sereia lança a faca no mar e faz com que seu silêncio viaje mais do que a canção. O mastro sobe sobre as ondas; a espuma sobe para a luz da manhã. Ao longo de milénios, as duas tradições encontram-se antes de uma pergunta: quando o mar chama, o que é que se pode deixar para trás e continuar em frente?
After the song is gone
01As Sereias na Odisséia têm caudas de peixe?+
A Odisseia não dá descrição de sua aparência. A arte visual grega normalmente apresenta-os como aves com cabeça humana; a cauda de peixe torna-se difundida através da convergência medieval de imagens de Siren com seres aquáticos europeus.
02O que as Sereias oferecem a Odisseu?+
Prometem prazer e maior conhecimento. Em particular, eles afirmam conhecer todo o sofrimento de gregos e troianos em Tróia, e tudo o que acontece na terra fértil.
03Porque é que o Odisseu se amarrou?+
Ele quer ouvir a canção e sabe que vai ordenar que a tripulação pouse. Seus ouvidos estão selados com cera, de modo que eles não podem ouvir o seu apelo; as cordas preservar sua audição, enquanto impedi-lo de mudar de curso.
04Como é que Orfeu leva o Argo para além das Sereias?+
Ele toca uma melodia rápida em sua lira e enche os ouvidos dos heróis com uma canção mais forte. Butes ainda salta ao mar e é resgatado por Afrodite.
05Quando é que as sereias de pássaros se transformaram em sereias?+
Não há uma única data de conversão. Imagens medievais combinam garras, asas e um ou dois peixes caudas ao longo de vários séculos, enquanto nomes e motivos de diferentes tradições de mulher-água convergem.
06Colombo realmente gravou sereias?+
O resumo de seu diário de bordo de 9 de janeiro de 1493 diz que ele tinha visto três Sirens no dia anterior e os achou menos bonitos do que pinturas. O log original é perdido; a conta sobrevivente vem através de Las Casas. Os animais são geralmente identificados como peixes-boi.
07Porque é que a Pequena Sereia do Andersen entrega a voz dela?+
A bruxa do mar exige a sua língua e voz como pagamento pela poção. A sereia aceita para ganhar pernas e perseguir o amor do príncipe e uma alma imortal.
08A sereia original do Andersen simplesmente se torna espuma?+
Seu corpo torna-se espuma depois que ela salta para o mar, mas ela então se levanta entre as filhas do ar. Ela não recebe uma alma imediatamente; ela ganha um caminho para um através de boas ações.
Follow the voice back to every source
- 01A Odisseia, Livro 12 — Texto grego e tradução de A. T. MurrayPerseus Digital Library · Tufts University
- 02Argonautica, Livro IV, linhas 885–922Theoi Classical Texts Library · R. C. Seaton translation
- 03As Sereias: As Mulheres-Ave e as Canções FataisThe Metropolitan Museum of Art · Dangerous Beauty
- 04Terracotta lekane com sirenes encorpadas de aves, meados do século VI a.C.The Metropolitan Museum of Art · Open Access
- 05Hidriai grego e sirenes funeráriasThe Metropolitan Museum of Art
- 06Sirene de luto de um monumento de sepulturaThe British Museum
- 07Worksop Bestiary, MS M.81, fols. 16v-17rThe Morgan Library & Museum
- 08Sereias, sereias e Alexandre, o Grande — Rainha Maria SaltérioThe British Library
- 09O Jornal de Cristóvão Colombo, 9 de janeiro de 1493Hakluyt Society edition · Internet Archive mirror
- 10Sereia ou Manatee?Smithsonian Institution
- 11Das sereias aos peixes-boi: o mito e a realidadeSmithsonian Ocean
- 12Den lille Havfrue (1837) — passagens de voz e de bruxos marinhosH. C. Andersen Centre · University of Southern Denmark
- 13A Pequena Sereia — Tradução de Jean HersholtH. C. Andersen Centre · University of Southern Denmark
- 14Manuscrito de Den lille HavfrueH. C. Andersen Centre · University of Southern Denmark
- 15Den lille Havfrue, primeira edição e história da publicaçãoH. C. Andersen Centre · Bibliography
- 16A Pequena Sereia — ilustração de Vilhelm PedersenWikimedia Commons · Public domain
leviathan
01
02
03